A Prostituta Redimida em “Crime e Castigo” e outras obras de Dostoiévski

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por John Barthelette

A PROSTITUTA é uma curiosa fixação da literatura na era vitoriana. Nas obras de William Thackeray e Samuel Richardson, era quase clichê a heroína terminar numa casa de prostituição e, então, transcender aquela situação numa demonstração das moralidades propriamente vitorianas. Tendo visto muitas jovens mulheres forçadas pela extrema pobreza a entregar-se ao negócio de uma mulher da vida, Fiódor Dostoiévski, ele mesmo um pequeno burguês falido em tempos difíceis, usou uma abordagem bem diferente da questão toda; ele reconheceu que estas mulheres não eram completamente sem méritos como tantas pessoas da época pensavam. Georg Brandes falou acuradamente quando disse: “Dostoiévski prega a moralidade do pária, do escravo.” Dostoiévski explorou estes temas, através de personagens prostitutas, em muitas de suas obras. As mais famosas destas personagens são encontradas em Crime e Castigo, Memórias do Subsolo, e A Dócil. Cada uma delas apresenta uma abordagem única da condição das prostitutas e o problema de sua redenção.

Em Crime e Castigo, Dostoiévski usa a personagem de Sônia Marmeládov, cujo primeiro nome significa “sabedoria”, não apenas para ilustrar a misericórdia de Deus para com uma mulher caída, mas para pô-la redimindo tanto a si mesma quanto a Raskólnikov através da misericórdia de Deus. Como na parábola dada por Padre Zosima em seu leito de morte, em Os Irmãos Karamázov, a conexão inicial de Raskólnikov com Sônia, no Livro I, funciona como seu “grão de trigo” que o guarda de ser completamente cortado da graça de Deus. Exatamente como a velha na parábola era sem mérito, exceto pelo fato de ter ela dado ao mendigo um grão de trigo, Raskólnikov carece de mérito após seu feito criminoso, exceto pelo fato de ter ele caridade para com a família de Marmeládov. Ele foi totalmente cortado da sociedade apenas por sua caridade para com aquela família em suas necessidades. Contudo, esta conexão seria inútil, não fosse a virtude de Sônia. Quando ele confessa-lhe seu crime hediondo, ela chora de pesar por ele e o suplica que salve-se a si, confessando-se. O ponto de Dostoiévski, aqui, é que, colocando-se como anátema da sociedade e de Deus, Raskólnikov está destruindo seu próprio espírito. Ele não está se permitindo funcionar como foi feito para funcionar, e uma casa dividida contra si mesma não pode permanecer. Da mesma forma, Raskólnikov não pode sobreviver como homem em um mundo invertido e perturbado para além do reconhecimento, por seu ato de violência e dissentimento social. A providência é, aqui, claramente ilustrada: Raskólnikov não pode sobreviver sem o auxílio de Sônia, porém nem Sônia poderia ser redimida, não tivesse Raskólnikov se aproximado em busca de sua própria redenção; ela teria continuado na estrada da perdição, da qual seus impulsos caridosos arrancaram-na.

O que Dostoiévski está ilustrando aqui? Eles está nos mostrando a crueldade da luta interior e o fato de que esta luta só pode ser vencida por meio do poder da graça e da redenção. Sônia luta com o fato de que ela é, de fato, uma casa dividida. De um lado, ela é a epítome da sabedoria e da santidade, e, do outro, a ferramenta base da luxúria dos homens. Esta flagrante contradição não pode permanecer; Sônia deve escolher um caminho ou outro. Raskólnikov também demonstra esta inerente contradição: ele é tanto puro bem, quanto puro mal. Esta mescla de pecado e sadismo, de pureza e esperança, não pode sobreviver, não pode permanecer como um todo coerente. A loucura aguarda aqueles que tentam não ser nem uma coisa, nem outra. O tumulto das emoções de Raskólnikov e de sua culpa o leva a confessar com o auxílio de Sônia, e, com o auxílio dele, Sônia deixa sua vida depravada e busca um nível de existência mais elevado na estética Sibéria. O homem definitivamente caído só pode ser compreendido pela mulher definitivamente caída. O tema da redenção mútua é melhor visto pelos olhos de uma Eva e de um Adão, e Dostoiévski usa esta ideia com grande efeito. Henry Miller expõe o ponto principal observando que “Dostoiévski é o caos e a fecundidade. A humanidade, com ele, é apenas uma vórtice no turbilhão borbulhante”.

Em Memórias do Subsolo, Dostoiévski revela uma visão de prostituição e redenção que é muito mais reminiscente de Paraíso Perdido, de Milton, que de Paradiso, de Dante. Estas memórias são as reflexões de Dostoiévski sobre os aspectos mais sombrios de seus anos vagando pelas ruas de São Petersburgo, e elas evocam a desesperança de um homem que, de tão atolado em sua própria sujeira mental e em seu ódio a si mesmo, regozija-se em sua doença, busca a humilhação, e é a criatura mais perversa imaginável. Após tentar jantar com velhos amigos de escola, mas simplesmente se embaraçando e magoando a todos ao seu redor, o Homem do Subsolo encontra uma meretriz para infligir nela sua vitriólica falta de auto-estima. Ele encontra Liza, empregada de um bordel. Seguindo-se à atividade conubial adquirida, o Homem do Subsolo, apanhado de algum estranho impulso, passa a contar a Liza o inevitável destino de todas as prostitutas: serem usadas, usadas de novo, e abandonadas. Ele se oferece para continuar a falar com ela e a ser seu amigo, e ela tentativamente aceita. Esta é a abertura da graça para ambos: uma chance para que ambos se abram e revivam o que é humano neles. Todavia, o Homem do Subsolo está acostumado demais à sua vida na imundície, e em escravidão e perversão mentais; quando Liza vem, ele violentamente rejeita sua amizade. Duas almas completamente distanciadas da humanidade permanecem assim para sempre, pois não cooperaram uma com a outra, e com a graça. Este cenário usa o problema confrontado por Raskólnikov e Sônia, e requer de nós que consideremos um final alternativo: um final em que o existencialista Homem do Subsolo “ganha” a batalha contra sua humanidade, e é permitido a Liza que volte-se para a penúria e a prostituição. Os finais trágicos desta história, considerados à luz do epílogo de Crime e Castigo, apenas nos mostram o quão sortudos foram tanto Sônia quanto Raskólnikov, e como ser aberto à graça e ser honesto com seu próprio estado é frequentemente o bastante para que Deus o ajude em meio a crises de consciência.

Para um entendimento mais refulgente de A Dócil, consideremos primeiro outra personagem de Crime e Castigo, Dúnia, que passa a maior parte do romance numa prostituição de outro tipo: a prostituição espiritual. Ela está sendo pedida em casamento por Lújin, um homem que deseja controlar os pensamentos, as mentes e os corações de todos à sua volta. Ele é uma chatice do pior tipo. Dúnia fugiu de uma posição sob o cruel Svidrigáilov para evitar uma prostituição verdadeira, mas, agora, por amor à sua mãe e ao seu irmão, ela é forçada a vender seu espírito, assim como seu corpo. Dúnia é uma personagem tão forte que nós percebemos que, se ela for obrigada a este compromisso, seja pelo seu senso de obrigação, seja por outras urgências, ela vai enlouquecer e se matar. Este é um terrível destino que sua família, com sorte, encontra uma forma de evitar. Entretanto, a heroína de A Dócil não tem tanta sorte. Esta jovem moça está na mesma situação que Dúnia, exceto que se casa com seu Lújin e se suicida. Esta é a terceira possibilidade para uma mulher que tem se vendido: a “vitória” existencialista da auto-destruição e o escape da desesperança. Como Ofélia, ela escolhe esta saída das dificuldades da vida, e abandona o sofrimento pelo sofrimento, a loucura por loucura mais lancinante, e cai para dentro do abismo, seja do nada existencial, seja da retribuição cristã.

Dostoiévski ilustra algumas importantes ideias quando examina a prostituta nas obras que discutimos. Ele mostra-nos que mesmo os mais humildes dos mais perdidos são amados pelo Pai, e, pelos seus sofrimentos, ganham valor. Secundariamente, ele mostra-nos o fato de que eles também podem ser redimidos, e funcionar como instrumentos de graça. Mas o mais importante é que ele nos diz que, sem nosso próprio esforço de transcender nossa natureza pecadora, fracassaremos como o Homem do Subsolo, ou saltaremos para nossa desgraça espiritual e física, tal como fez a heroína de A Dócil. Todos somos Raskólnikov; todos somos Sônia. A chave é lutar, lutar mais e lutar para sempre para alcançar a inalcançável perfeição que perdemos, inalcançável sem Deus.

Tradução: William Estaquio. Original aqui.


Obras citadas e consultadas:

Dostoevsky, Fyodor. Crime and Punishment. Trans. Constance Garnett. New York: Bantam, 1981.

Dostoevsky, Fyodor. The Brothers Karamazov. Trans. Constance Garnett. New York: Signet Classics, 1999.

Dost. Research Station. Ed. Christiaan Stange. Vers. ? 17 July 1999 – kiosek.com/dostoevsky/quotations.html

Martinsen, Deborah A., ed. Notes From Underground, The Double, and Other Stories. New York: Barnes and Noble Classics, 2003.

 

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